Posted by : WhiteVir Scarlet sábado, 3 de junho de 2017





Chovia, naquele dia fatídico.

O que havia sido uma tarde pouco ensolarada, havia se tornado uma verdadeira paisagem escura e borrada. Perdia-se a nitidez, pois a chuva nada deixava escapar: tudo estava molhado e cai com tanta frequência, que mal se poderia ver alguns passos a frente.

O Pokémon seguia em frente, sem algo para protegê-lo da chuva que não fosse a sua capa, surrada e desgastada. Encharcado, tentou se desviar de uma grande poça que havia se formado. Mas sem sucesso, pisa nas bordas e molhou boa parte de sua perna. Sentindo o frio subir pelo corpo, se cobre ainda mais e abaixa a cabeça.

Os pingos eram grossos e constantes, não se ouvia mais o barulho de conversas dos membros que ali habitavam ou os visitantes: todos foram para algum lugar seguro, escondendo-se da chuva, secos e confortáveis.

Bufou com esse pensamento e acelerou seus passos, ignorando o desconforto de sentir algo pegajoso em seus pés. A lama, é claro.  Na sola dos sapatos.

Quando por fim virou à esquerda, entrara numa nova rua, também escura.  Virou a cabeça e viu algo colorido naquela imensidão negra da noite.

Mas seguiu em frente, pois a chuva piorara. Tirando o som constante das gotas caindo do céu, ouviu um gemido, fraco e distante. Acelerou os passos, comandando suas pernas a irem mais rápido.

“Estou chegando...”

E estava. Mais alguns minutos e estaria relaxando dentro daquelas quatro paredes. Sim, aquecido e seco, assim como todos que não estavam ali. Ouvi mais uma vez aquele gemido, abafado e distante.

Não.

Deveria seguir em frente, raciocinou. Mas algo em suas pernas o fez dar meia volta e correr, se aproximando daquela fonte colorida.

Os pingos pareciam, por um momento, realmente querer machuca-lo. Pareciam finas agulhas, entrando em sua carne, perfurando seus músculos e o impedindo de se mover. 

Grunhiu alto, mas sua voz fora abafada pela chuva. Havia passado despercebido.

Quando se aproximara da voz, se perguntara se havia se calado. Ou se era algo de sua mente, pregando uma peça em si mesmo. Mas chegou mais perto, encontrando algo em seu caminho. Parado no meio da estrada estava algo escondido, mas escuro e pequeno. Agachou-se e viu que se tratava de um pequeno Pokémon amarelo.

- Hey, você, não está perdido?

Sua resposta foi um gemido doloroso, baixo. Então avaliou o Pokémon, ainda que não conseguisse o ver direito.

- Está perdido?-perguntou mais uma vez.

Mas isso o fez se esconder ainda mais, em panos pretos e encharcados.

Então a chuva piorou com as gotas caindo com mais força e intensidade, a ventania uivante, como se gritasse seu nome por entre as bandas. Não passou a ouvir mais o choro, pois fora abafado.

Droga, ele só queria sair dali e ficar debaixo das cobertas.

Levantou-se e esticou os braços, pegou a pequena criatura que sequer reagiu quando este o pegou, e dando meia volta, continuou com seus passos acelerados.

- Não se preocupe, estamos chegando.-gritou, mas pareceu mais com um sussurro.

As arvores não paravam de se balançar, de um lado para o outro. Pensou que em um momento, devido ao ângulo que ficavam quando o vento batia nelas, se não cairiam ou sairiam sendo arrastadas.
.
O corpo em que segurava estava gelado, frio e molhado. Era leve, estando totalmente encolhido em seus braços. Quando parou de se mexer, ele pensou se a criatura tinha desistido de viver ou então desmaiado. Torceu para que fosse a ultima.

Mais um trovão, forte e estrondoso. A luz havia passado tão rápido que fora apenas um clarão de meio segundo, seguido de um som ensurdecedor. O Pokémon em seus braços se encolheu ainda mais, mostrando um sinal de vida. Agarrara seu pescoço, por um momento surpreendendo quem carregava.
Quase tropeçou por causa do solavanco abrupto, mas forçou a suas pernas a se recuperem e a continuar o caminho.

Seguia reto, ainda que pelas bordas das lojas, que estavam com as tenda levantadas, servindo se um pequeno abrigo para aqueles que andassem na chuva. Por um momento, agradeceu por não sentir mas os pingos gélidos nas costas.

Então se virou, ficando de baixo de uma grande tenda marrom, parando em frente da porta. Segurou o Pokémon com apenas um braço, pois precisou pegar a chave, com um pequeno dente preso na ponta, como um chaveiro.

Girou a chave e depois a maçaneta. Entrou e retirou o objeto do lado de fora e trancou-se dentro do lugar.

Percebia que estava praticamente tudo escuro, então se dirigi ao meio da sala e depositou calmamente o Pokémon no chão.

- Não... -sussurrou ainda chorando, segurando a manga do outro ao lado.

- Eu já volto... Vou acender as luzes. Eu já volto. –disse, consolando a criatura abaixo, ainda sequer vendo seu rosto devido a escuridão.

- Hmn... –gemeu. Largou a mão e se encolheu, cobrindo-se ainda mais.

- Eu prometo, é rápido. –dito isso, se virou e correu.

Conhecia aquele lugar de olhos fechados, o que levou rapidamente ao interruptor há alguns metros de onde estava. Puxou a alavanca, forçando-a, pois parecia enferrujada. Com um grunhido, conseguiu abaixa-la, e as luzes se acenderam.

O Local era oval, com paredes de pedra marrons, a base feita de pedras cinzentas. Havia decorações com ossos na sala, também com penas emplumadas e alguns colares. As luzes estavam ao redor, e não somente no centro, o que fez parecer que era de dia. Havia algumas toras de madeira no canto direito da sala, além de alguns candelabros nas paredes, vazios e apagados.

A janela de madeira estava fechada, e quase parecia se camuflar na sala. No centro, aonde estava o Pokémon encolhido, havia um circulo grande pedras finas. O Pokémon tirou o seu caso e o colocou num cabide, ao lado da entrada. Limpou as botas no tapete azul claro, lembrando-se de limpar aquilo mais tarde.             

Andou mais um pouco e chegando ao outro lado da sala, havia uma pequena fonte, e pegando uma toalha pequena num cabide próximo, molhou e enxugou o rosto. Pegou outro pano, limpo e úmido, e se dirigiu para o centro da sala.

- Você não precisa se esconder. Aqui, pegue. –e estendeu o braço, oferecendo o pano.

O Pokémon olhou, receoso. Mas estendeu o braço fino para pegar. Então começou a olhar para o pano e depois para o outro ao lado.

- Eu me chamo Bernard. Qual é o seu nome?

O Pokémon que se apresentara, era um jovem Marowak, mas enganara-se quem pensara que ele era de fato, agindo como um jovem. Usava uma mascara de caveira, típico de sua espécie, mas estava com uma rachadura no olho esquerdo, porem fina. Seus chifres eram um pouco curvados e afiados na ponta. Não se podia ver seus olhos daquele ângulo, ocultado por uma parte negra.

Usava faixas em seu torço, além de colares com dentes ou com um objeto redondo. Seu cinto com outros colares demarcava o inicio de sua calça, marrom clara.  Havia outros objetos enrolados no braço, indo até mesmo aonde as faixas enrolavam, abaixo do cotovelo até as mãos. Não segurava arma alguma, ao menos, por enquanto.

O Pokémon escondido então timidamente tira sua capa preta e se levanta cambaleando. Era amarelo, e com duas coroas pequenas na cabeça. Seus cabelos eram de um dourado, lembrando o próprio sol. Seus olhos eram vermelhos, mas estavam marejados. Começou a cambalear, mas Bernard a segurou pelos braços. Era uma jovem garota.

Magikarp levantou sua cabeça, deparando-se com a máscara de Marowak. A primeira coisa que ele pensara, seria solta-la, pois ela recuaria. Sua mascara costumava espantar algum outro Pokémon, e depois de algum tempo, passou a se acostumar com isso.

Mas ela não recuara, arregalando seus olhos. 

- Sou Úrsula...

- Úrsula... Hum... Bem, gostaria de uma xícara de chocolate quente?-indagou, com seu sorriso escondido atrás da mascara.

Ela então desviou o olhar e se soltou, não voltando a cambalear. O seu peito subia e descia, acompanhando sua respiração, um pouco acelerada.

- Eu gostaria... -sussurrou, desviando olhar. 


* * *


A chuva do lado de fora continuava, impiedosa e cada vez mais forte naquele cenário escuro, que era o lado de fora. A Magikarp olhava pela janela, silenciosa e segurando sua xícara, com pouco chocolate, quase no final.

Marowak estava de costas, mexendo numa pequena fogueira. Aquela era a pequena cozinha, escondida numa parede de pedras, onde ninguém desconfiaria que sequer existisse. Quando o achocolatado ficara pronto, colocara um pouco mais na xícara dela, em silencio.

Úrsula percebeu e tirou a caneca, no ultimo instante. Derramou um pouco de chocolate, e ao cair na mão, jogara a xícara no balcão, que deslizou.

Marowak estica o braço, e flexionando o joelho, intercepta a xícara, impedindo-a de cair no chão. Um pouco do liquido quente havia caído em suas mãos, mas não mostrou reação alguma. Colocou a xícara e a panela no balcão, e pegara um pano. Estendeu para Magikarp, que aceitou sem contestar.

- Desculpa. –disse, desviando o olhar. Envergonhada, se virou na cadeira, ficando de costas para Marowak.

- Não precisa. Foi sem querer. –disse, dando meia volta no balcão e ficando de gente para Úrsula. –Na próxima vez, eu aviso.

Úrsula nada disse, ficando de cabeça baixada. Olhou então para a janela, onde ainda chovia.

- Me desculpe, mas você poderia me dizer que horas são?-perguntou, aos sussurros.

- É claro. –e se virou, entrando em uma sala, desaparecendo. Surgiu novamente debaixo do arco de ossos, e carregava um objeto nas mãos. Era redondo,havendo duas setas, também de finos ossos.

Havia alguns riscos brancos ao redor, e estende para Úrsula, que ficara na duvida.

- O que é isso? –perguntou, virando a cabeça. Pegou o objeto quando Marowak estendera mais uma vez, e passou a analisa-lo.

- É um relógio. Ele nos diz que horas são. Está vendo esses riscos? –apontou para eles. –Eles marcam as horas e minutos quando esses ossos ficam em cima deles. É com isso que vemos o horário.

- Ah...- e levanta as sobrancelhas.

Marowak então explicou mais algumas coisas relacionadas ao relógio. Sentou-se ao seu lado, na cadeira disponível, quando mencionou tempo, começara a falar de Dialga, o Pokémon do Tempo.

- Do tempo? Ele é um relógio?

- Ah não, não. - disse, rindo. –Ele é um Pokémon Deus. Ele controla todo o tempo, seja passado, presente ou futuro. Graças a ele, há os dias e as noites. E também as trocas de estações, pois cada uma sempre determina a época em que estamos.  

- Ah... Entendi. – e voltara a olhar para o relógio. Então devolveu a Marowak, que saíra de seu assento, ao lado de Úrsula, e caminhara até a parede. Com uma corda, amarrou o relógio na parede, e assim ficara. Os ponteiros não faziam barulho algum. 

Mas agora, olhando as horas, estava tarde.

- Escute. –e ela se virou para ele. – Está muito tarde, e acho melhor você-

- Sair.-disse abruptamente.- Sim, eu já vou indo.

Saíra de seu assento, e fora até o meio da sala. Marowak correra, e a segurara pelo pulso.

- Não! Está tarde! E chovendo! Por favor, fique!-implorou.

Ela se virou, surpresa.

- ...Eu não tenho como te retribuir e-

- Nós acertamos isso mais tarde. Por hora, você está com olheiras. Venha comigo!


* * *


Marowak a puxara pelo pulso, e chegara em seu quarto.

- Você vai dormir aqui.

- Mas- 

- Sem mais. Eu durmo aqui. –e pegou outros cobertores do armário, e sentara-se no chão. Ela ficara parada, tremendo.

- Ah... Isso seria muita invasão de privacidade? –perguntou, se levantando.

- Ah, ah não! Me desculpe! –e correu para a cama escondendo-se nos lençóis.

Marowak aprovou o gesto, gesticulando com a cabeça para si mesmo. Deixou a luz do abajur ligada, apagando a do quarto.

Então, desejou boa noite, recebendo um de volta também.



* * *


Magikarp acordara e lentamente saiu da cama. Então se lembrara de onde estava, e corou. Levantou-se e viu que dormira de sapatos.

Rapidamente jogou as cobertas para o lado e saiu da cama. Cobriu um bocejo com a palma da mão, e quando estava no pátio, viu que Marowak estava no centro da sala oval, com um grande osso nas mãos. Batia em três fantoches de madeira, girando o bastão e então pulou. Bateu com força e um se estraçalhou ali mesmo, em sua frente.

Girara mais uma vez, para o alto e atingira outro, na horizontal, cortando-o ao meio. O ultimo não fora diferente: fora esmagado com um corte na diagonal. Quando terminou, Marowak girou o osso e então fez uma reverencia a cada um dos corpos.

Saiu de lá, e notara que Úrsula o assitia.

-  Bom dia! Dormiu bem?-perguntou se aproximando.

-A-ah, sim! Obrigada! Sua cama é muito confortável!

- Mesmo? Eu lembrei que ela poderia ser um pouco dura...

- Ah, não, não. É maravilhosa. –e sorriu.

- Neste caso, gostaria de um café da manhã?



* * *



Quando havia terminado, ofereceu para limpar a louça. Mas Marowak fora tão rápido que já estava guardando os objetos.

-Você deve lutar muito bem. –disparou.

- Obrigado. Eu treino muito.

- Eu vejo.

Um silencio se instaurou na sala, quase que agradável. Magikarp olhava para suas mãos, então se levantou e pegou a vassoura mais próxima.


- O que acha de eu treinar você?

- O que?!-e a vassoura caiu no chão, assustando a própria garota.

- É! Eu já tenho uma ideia do que você deve usar! Espere aqui!

Marowak se movera, indo para o outro canto da Sala. Abrira um armário grande, e ela percebeu que era um pequeno arsenal de armas. Ele vagou os olhos e após alguns segundos, pegou um objeto longo e fino, com uma ponta afiada no final. Ele fechou o armário e se aproximou.

-Isso aqui é uma lança. Eu vou te ensinar tudo o que precisa!

- Mas... Por que está fazendo isso...?

- Hum... Eu acho que você precisa.

- Como?

- Er, não que não saiba se defender! Não quis ofender!- e colocou as mãos para frente.- Mas... Acredito que você seria uma ótima lutadora!

- Mas... por que acha isso?-indaga, pegando a vassoura do chão.

- Eu... Ah, é estranho de dizer... - disse embaraçado, corando através da mascara.

- Ah, vamos, me diga! –e se animou.

- Eu já tive alguns pupilos, e eles se tornaram ótimos lutadores... Mas, você tem determinação nos olhos...

- Eu?

- Eu espero não estar errado. Mas vamos ao menos tentar. O que você me diz?

Ela pareceu pensar sobre o assunto.

De fato, esse Marowak a salvara, dera abrigo e alimento. O minimo que poderia fazer, era retribuir. Então depositou a vassoura no balcão e se virou para ele.

- ... Não seria uma má ideia, não é mesmo?



Então após alguns minutos, ambos estavam no meio da sala, e Úrsula estava com uma pequena armadura, cobrindo o torço, pulsos e coxas. Bernard começou a explicar e demonstrou como se movia com uma lança. A Magikarp prestou atenção a cada movimento, e quando pegou a lança, a deixou cair. Ambos a pegaram e ele soltou primeiro.

Num relance, Úrsula jurou que vira os olhos do novo professor. Desculpara-se, e então tomou uma posição e moveu a lança. Começou devagar, e Marowak afirmou que estava no caminho certo.

- Tente me acertar.

- Mas você não está nem mesmo com uma arma!

- Vamos. –insistiu.

Então Úrsula investe para a frente, e Marowak dera meia volta, girando e pegando no cotovelo de Úrsula. Prendeu ambos os pulsos, e a garota soltou a lança, involuntariamente.

- Você é rápida. Mas precisa ser um pouco mais. –disse, com ela de costas. Ela tentou se soltar e ele se surpreendeu com a força repentina nela.

Então ela pisara em seu pé com força, e ele a soltou. Ela aproveitou a brecha e o empurrou e pulou em cima dele, fazendo ambos caírem. Assim, ela rolou no chão e se levantou, cruzando os braços com um sorriso vitorioso.

- O que disse mesmo? –debochou com o sorriso aumentando a cada segundo.

- Eu disse. –e se desvinculou de suas pernas, a pegando pelos braços e invertendo as posições.  Ela ficou surpresa, e soltou um suspiro.

- Eu disse pra ser mais rápida. E nunca subestime o inimigo!



Próximo capítulo: Marowak´s Dojo, capítulo 2



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